sábado, 22 de novembro de 2008
 
 
A Verdadeira História

S.S. Palestra Itália - Fundação e Origens

Fundação: 26/08/1914
Origens:Em 1914 já haviam vários clubes italianos na cidade, que tinha 25% da população vinculada à colônia, mas eram todos varzeanos, clubes de operários que praticavam o futebol pelos campos disponíveis da cidade. Nas ligas da elite paulistana desfilavam apenas equipes representantes dos ingleses [como o Mackenzie], escoceses [Scottish Wanderers], alemães [Germânia] e da burguesia da cidade [como Paulistano e São Bento].
Neste ano, a primeira visita de equipes italianas ao Brasil, [simultaneamente a Pró-Vercelli e a Torino], mobilizaram a colônia, que se encheu de orgulho ao ver os campeões italianos enfrentarem imponentemente as equipes da elite paulista.
É neste contexto que uma fagulha fomentou a criação de uma equipe que pudesse representar toda a colônia na cidade de São Paulo, um clube que reunisse os vários atletas de origem italiana, espalhados por clubes da cidade, montando uma equipe competitiva capaz de brigar por títulos contra as grandes equipes da elite.
Luigi Cervo, jovem funcionário administrativo das Indústrias Matarazzo [subordinado do Cav. Ernesto Giuliano, pai do Paschoal Giuliano], jogava futebol pelo S.C.Internacional da capital, é foi o principal idealizador. Após reunir vários amigos em torno da idéia, convenceu outro jovem, Vicente Ragognetti, jornalista, poeta e escritor, a se envolver. Anos depois Ragognetti forneceu um depoimento que retrata este momento da gênese palestrina:
"...mandei uma cartinha ao Fanfulla atacando, sempre tive e tenho a mania de atacar alguém, a colônia italiana de S.Paulo então numerosa e barulhenta, pela sua negligencia em não fundar um time de futebol... no dia seguinte o Luigi Cervo, empregado de categoria das Indústrias Matarazzo respondia aceitando a proposta. Liderando um grupo de seus colegas de trabalho, e convocava uma reunião para a fundação..."
Em outro depoimento, desta vez de Luigi Cervo para Walter Pellegrini, então historiador oficial do clube, a história continua:
"...Eu e meus colegas funcionários da Casa Matarazzo fazíamos parte da Sociedade Recreativa e Dramática Bela Estrela, onde reuníamos as nossas famílias para eventos lítero-musicais e também para as danças que, naquela época, eram consideradas como novo gênero de esporte. No entanto, as visitas à nossa capital das equipes de futebol da Pró-Vercelli e Torino, que aqui realizaram onze partidas, repercutiam em todas as classes, provocando, como era natural, o sentimento patriótico da colônia com momentos de empolgação e de entusiasmo transbordante."
A seguir, a transcrição das duas publicações históricas feitas no jornal Fanfulla, representativo da colônia italiana:

14/08/1914 - Carta do Ragognetti publicada no Fanfulla

"Pela formação de um quadro italiano de futebol em São Paulo.
São Paulo, 13 de Agosto de 1914
Egrégio Sr. Diretor do "Fanfulla"
Uma palavra apenas e, para esta, um cantinho no vosso jornal.
Eis do que se trata:
Alguns conhecidos futebolistas italianos, mas associados a clubes brasileiros, encarregaram-me de escrever-vos acerca de um projeto por eles comentando entre dois goles de café, fazendo-me então compreender a esperança de que tal projeto o vosso jornal se torne portador e propagandista.
Nós temos em São Paulo (afirmam os referidos esportistas) o clube dos alemães, dos ingleses, dos portugueses, dos internacionais, e mesmo dos católicos e dos protestantes. Mas, para um clube que seja exclusivamente de "sportman" italiano, e sendo nossa Colônia a maior do estado, nada se tentou ainda realizar. Futebolistas italianos que jogam bem, encontram-se em São Paulo. Por que, de comum acordo, não reunimos os referidos senhores e, assim como temos associações de remo, filodramáticas, mundanas, patrióticas, etc., de estrutura italiana e fundemos um clube de futebol ?
Aí fica a proposta dos futebolistas italianos e com V.S., Sr Diretor, o comentário
(a) Vicente Ragognetti"

 

19/08/1914 - Anúncio publicado no Fanfulla por Luigi Cervo e amigos

Fanfulla de 19/08/1914, página 5, Seção "Gli Sports"
"Palestra Itália. Foi organizada uma diretoria provisória para a formação de uma sociedade que está denominada Palestra Itália. A Sociedade compreenderá, também, a seção filodramática e dançante, além de uma seção esportiva, objetivando a organização de um time puramente italiano, para jogos de foot-ball. Os aderentes, que até o momento se compõem de estudantes e empregados no comércio, reunir-se-ão hoje às 20 horas, no Salão Alhambra, sito à Rua Marechal Deodoro nº 2, com o fim de eleger a diretoria provisória e para completa formação da Sociedade."
"Todos os quais desejarem participar da criação de um clube italiano de cálcio (futebol) devem comparecer às 20h00 no número 2 da Rua Marechal Deodoro, Salão Alhambra, para a reunião de fundação do Palestra Itália".
A primeira reunião, na quarta-feira 19/08/1914 contou com 37 presenças, e ficou marcada por muita discussão em torno do objetivo primordial do novo clube. Parte dos que estavam presentes queria um clube voltado a atividades artísticas e literárias, enquanto que a maioria queria um clube focado no futebol. Assim, Luigi Cervo e os amigos marcaram nova reunião para a quarta-feira da semana seguinte, 26/08/1914, que acabou ficando formalizada como a data de fundação do clube.
Entre os 46 presentes, fundadores do Palestra Itália, absolutamente nenhum fazia parte ou foi membro do clube Corinthians. Eram em sua grande maioria moradores do Brás e funcionários das Indústrias Matarazzo, entre eles:

  1. Cervo, Luigi [eleito Secretário-Geral        
  2. Marzo, Luigi Emmanuelle [eleito Vice-Presidente]
  3. Ragognetti, Vicente [eleito Diretor Esportivo]
  4. Simone, Ezequiel [eleito 1º Presidente]
  5. Aulicino, Antonio [eleito vice-secretário]
  6. Cileno, Francesco Vicenzo [inspetor de sala]
  7. Giangrande, Oreste [eleito revisor de contas]
  8. Giannetti, Guido [eleito revisor de contas]
  9. Morelli, Francesco [eleito 2º mestre de sala]
  10. Nipote, Francisco De Vivo [eleito tesoureiro]
  11. Rebucci, Armando [eleito revisor de contas]
  12. Silva, Alvaro F. da [eleito 1º mestre de sala]

  1. Azevedo, Alfonso de
  2. Betti, Delfo
  3. Bucciarelli, Amadeo
  4. Camargo, Francesco
  5. Ciello, Michele A.
  6. Del Ciello, Clementino
  7. Ferré, Fábio
  8. Gallo, Eugenio
  9. Gallucci, Antonio
  10. Giannetti, Giorgio
  11. Giannetti, Giulio
  12. Izzo, Adolfo
  13. Izzo, Alfredo
  14. Izzo, Luigi
  15. Lamacchia, Giovanni
  16. Lilla, Onofrio
  17. Maninni, Battista
  18. Médici, Luigi
  19. Migliori, Alfredo
  20. Mosca, Alfonso
  21. Nigro, Giuseppe
  22. Pareto, Leonardo
  23. Prince, Giuseppe
  24. Rizzo, Vicenzo
  25. Rosario, Luigi M. F.
  26. Romano Filho, Gennaro
  27. Romano, Oreste
  28. Rossi, Giovanni
  29. Russo, Ercole
  30. Tavollaro, Michele
  31. Vaccari, Aughusto

Numa demonstração clara da diferença da concepção do Palestra Itália desde a sua fundação, em relação aos demais clubes italianos da cidade, e das grandes ambições desde sua origem, é justamente o Baile de apresentação do clube para a sociedade paulistana, realizado em Janeiro de 1915, antes mesmo de sua primeira partida. Um evento luxuosíssimo, no Salão Nobre do Clube Germânia, com decoração especial, coquetel, jantar completo e baile sob o comando de uma grande orquestra. O baile contou ainda com a presença de diversas personalidades paulistanas, todos os expoentes da colônia, com destaque para o Cônsul Geral, Comendador Pietro Barolli.
Os preparativos, a organização e os convites geraram frutos antes mesmo do Baile, já que uma semana antes, a APSA, liga de elite do futebol paulista, anunciava oficialmente o ingresso do Palestra Itália como filiado da entidade.
Como pode ser visto e afirmado com absoluta clareza, os dois clubes jamais possuíram qualquer vinculo nas origens, muito menos a "versão" completamente infundada de uma cisão no Corinthians que pudesse ter vinculo com as origens do Palestra Itália. Não há nem mesmo registro de cisão na história do Corinthians, nos idos de 1914.

Qual o motivo então para o surgimento desta versão, além da simples ignorância e desconhecimento da história dos dois clubes ?
A suspeita recai sobre um fato paralelo, que em nada tem a ver com a fundação:
O Corinthians, foi fundado em 1910 e passou a fazer jogos na várzea paulistana. Somente em 1913 conseguiu sua inscrição para a recém-criada LPF, liga paralela que reunia clubes de menor expressão, impedidos de participar da APSA comandada pelo Paulistano.
Em 1914 o Corinthians conquistou o torneio da LPF, e com este cacife procurou a APSA em 1915, obtendo o sinal positivo para sua filiação na liga da elite. Desta forma, formalizou seu desligamento da LPF, abrindo mão do torneio. Para sua surpresa, a APSA aceitou a filiação mas não inscreveu o Corinthians no torneio de 1915. Não aceitando a situação, pediram o desligamento da APSA e retornaram para a LPF, mas o torneio já havia sido iniciado. Assim o Corinthians ficou fora de qualquer torneio em 1915, liberando seus jogadores. Neco, Casemiro, Gonzales e Bianco disputaram o Paulista daquele ano pelo Mackenzie, Pollice pelo Wanderers, e Bororó, Aparício, Fulvio, Peres e Amilcar, pelo Ypiranga. Em paralelo os jogadores se reuniam para amistosos com a camisa do Corinthians.
Em paralelo, ocorre que o Palestra Itália passa a atrair jogadores italianos de todas as equipes, obtendo a adesão de vários expoentes, incluindo o goleiro Stillitano e o ponta Dante Vescovini, ambos do poderoso Paulistano, Olivieri que jogava junto com Luigi Cervo no S.C.Internacional, Flosi do Lusitano, Di Lascio, Cestari, Grimaldi e Severini do Campos Elyseos, Bertolini de Jundiaí, Picagli do Ruggerone, e até do Corinthians, alguns jogadores como Fulvio, Police e Amilcar acabam participando do primeiro amistoso.
Quanto a Bianco, muitas vezes citado, na verdade o craque após morar na Argentina, tornando-se inclusive campeão da segunda divisão daquele País em 1912, aos 19 anos de idade, retornou ao Brasil e foi convidado a atuar pelo Corinthians apenas durante a passagem do Torino [1914], para reforçar a equipe. O vinculo com o Palestra Itália vem desde a fundação do clube, já que seu pai foi um dos primeiros dirigentes do clube. Em 1915 Bianco atuou no campeonato paulista pelo Mackenzie, chegou à seleção da APSA e já em 1916 integrou-se ao Palestra Itália para seu primeiro campeonato oficial, tornando-se um dos maiores ídolos da história do clube, onde permaneceu por longuíssimos 17 anos, conquistando vários torneios.

 

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