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| A Verdadeira História
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S.S. Palestra Itália - Fundação e Origens
Fundação: 26/08/1914
Origens:Em 1914 já haviam vários clubes italianos na cidade,
que tinha 25% da população vinculada à colônia, mas eram todos varzeanos,
clubes de operários que praticavam o futebol pelos campos disponíveis da
cidade. Nas ligas da elite paulistana desfilavam apenas equipes representantes
dos ingleses [como o Mackenzie], escoceses [Scottish Wanderers], alemães
[Germânia] e da burguesia da cidade [como Paulistano e São Bento].
Neste ano, a primeira visita de equipes italianas ao Brasil, [simultaneamente a
Pró-Vercelli e a Torino],
mobilizaram a colônia, que se encheu de orgulho ao ver os campeões italianos
enfrentarem imponentemente as equipes da elite paulista.
É neste contexto que uma fagulha fomentou a criação de uma equipe que pudesse
representar toda a colônia na cidade de São Paulo, um clube que reunisse os
vários atletas de origem italiana, espalhados por clubes da cidade, montando
uma equipe competitiva capaz de brigar por títulos contra as grandes equipes da
elite.
Luigi Cervo, jovem funcionário administrativo das Indústrias
Matarazzo [subordinado do Cav. Ernesto Giuliano, pai do Paschoal Giuliano],
jogava futebol pelo S.C.Internacional da capital, é foi o principal
idealizador. Após reunir vários amigos em torno da idéia, convenceu outro
jovem, Vicente Ragognetti, jornalista, poeta e escritor, a se
envolver. Anos depois Ragognetti forneceu um depoimento que retrata este
momento da gênese palestrina:
"...mandei uma cartinha ao Fanfulla atacando, sempre tive e tenho a
mania de atacar alguém, a colônia italiana de S.Paulo então numerosa e
barulhenta, pela sua negligencia em não fundar um time de futebol... no dia
seguinte o Luigi Cervo, empregado de categoria das Indústrias Matarazzo
respondia aceitando a proposta. Liderando um grupo de seus colegas de trabalho,
e convocava uma reunião para a fundação..."
Em outro depoimento, desta vez de Luigi Cervo para Walter Pellegrini, então
historiador oficial do clube, a história continua:
"...Eu e meus colegas funcionários da Casa Matarazzo fazíamos parte da
Sociedade Recreativa e Dramática Bela Estrela, onde reuníamos as nossas
famílias para eventos lítero-musicais e também para as danças que, naquela
época, eram consideradas como novo gênero de esporte. No entanto, as visitas à
nossa capital das equipes de futebol da Pró-Vercelli e Torino, que aqui
realizaram onze partidas, repercutiam em todas as classes, provocando, como era
natural, o sentimento patriótico da colônia com momentos de empolgação e de
entusiasmo transbordante."
A seguir, a transcrição das duas publicações históricas feitas no jornal
Fanfulla, representativo da colônia italiana:
14/08/1914 - Carta do Ragognetti publicada no Fanfulla
"Pela formação de um quadro italiano de futebol em São Paulo.
São Paulo, 13 de Agosto de 1914
Egrégio Sr. Diretor do "Fanfulla"
Uma palavra apenas e, para esta, um cantinho no vosso jornal.
Eis do que se trata:
Alguns conhecidos futebolistas italianos, mas associados a clubes brasileiros,
encarregaram-me de escrever-vos acerca de um projeto por eles comentando entre
dois goles de café, fazendo-me então compreender a esperança de que tal projeto
o vosso jornal se torne portador e propagandista.
Nós temos em São Paulo (afirmam os referidos esportistas) o clube dos alemães,
dos ingleses, dos portugueses, dos internacionais, e mesmo dos católicos e dos
protestantes. Mas, para um clube que seja exclusivamente de "sportman"
italiano, e sendo nossa Colônia a maior do estado, nada se tentou ainda
realizar. Futebolistas italianos que jogam bem, encontram-se em São
Paulo. Por que, de comum acordo, não reunimos os referidos senhores e,
assim como temos associações de remo, filodramáticas, mundanas, patrióticas,
etc., de estrutura italiana e fundemos um clube de futebol ?
Aí fica a proposta dos futebolistas italianos e com V.S., Sr Diretor, o
comentário
(a) Vicente Ragognetti"
19/08/1914 - Anúncio publicado no Fanfulla por Luigi Cervo e amigos
Fanfulla de 19/08/1914, página 5, Seção "Gli Sports"
"Palestra Itália. Foi organizada uma diretoria provisória para a formação de
uma sociedade que está denominada Palestra Itália. A Sociedade compreenderá,
também, a seção filodramática e dançante, além de uma seção esportiva,
objetivando a organização de um time puramente italiano, para jogos de
foot-ball. Os aderentes, que até o momento se compõem de estudantes e
empregados no comércio, reunir-se-ão hoje às 20 horas, no Salão Alhambra, sito
à Rua Marechal Deodoro nº 2, com o fim de eleger a diretoria provisória e para
completa formação da Sociedade."
"Todos os quais desejarem participar da criação de um clube italiano de cálcio
(futebol) devem comparecer às 20h00 no número 2 da Rua Marechal Deodoro, Salão
Alhambra, para a reunião de fundação do Palestra Itália".
A primeira reunião, na quarta-feira 19/08/1914 contou com 37 presenças, e ficou
marcada por muita discussão em torno do objetivo primordial do novo clube.
Parte dos que estavam presentes queria um clube voltado a atividades
artísticas e literárias, enquanto que a maioria queria um clube focado no
futebol. Assim, Luigi Cervo e os amigos marcaram nova reunião para a
quarta-feira da semana seguinte, 26/08/1914, que acabou ficando formalizada
como a data de fundação do clube.
Entre os 46 presentes, fundadores do Palestra Itália, absolutamente nenhum
fazia parte ou foi membro do clube Corinthians. Eram em sua grande
maioria moradores do Brás e funcionários das Indústrias Matarazzo, entre eles:
-
Cervo, Luigi [eleito
Secretário-Geral
-
Marzo, Luigi Emmanuelle [eleito Vice-Presidente]
-
Ragognetti, Vicente [eleito Diretor Esportivo]
-
Simone, Ezequiel [eleito 1º Presidente]
-
Aulicino, Antonio [eleito vice-secretário]
-
Cileno, Francesco Vicenzo [inspetor de sala]
-
Giangrande, Oreste [eleito revisor de contas]
-
Giannetti, Guido [eleito revisor de contas]
-
Morelli, Francesco [eleito 2º mestre de sala]
-
Nipote, Francisco De Vivo [eleito tesoureiro]
-
Rebucci, Armando [eleito revisor de contas]
-
Silva, Alvaro F. da [eleito 1º mestre de sala]
-
Azevedo, Alfonso de
-
Betti, Delfo
-
Bucciarelli, Amadeo
-
Camargo, Francesco
-
Ciello, Michele A.
-
Del Ciello, Clementino
-
Ferré, Fábio
-
Gallo, Eugenio
-
Gallucci, Antonio
-
Giannetti, Giorgio
-
Giannetti, Giulio
-
Izzo, Adolfo
-
Izzo, Alfredo
-
Izzo, Luigi
-
Lamacchia, Giovanni
-
Lilla, Onofrio
-
Maninni, Battista
-
Médici, Luigi
-
Migliori, Alfredo
-
Mosca, Alfonso
-
Nigro, Giuseppe
-
Pareto, Leonardo
-
Prince, Giuseppe
-
Rizzo, Vicenzo
-
Rosario, Luigi M. F.
-
Romano Filho, Gennaro
-
Romano, Oreste
-
Rossi, Giovanni
-
Russo, Ercole
-
Tavollaro, Michele
-
Vaccari, Aughusto
Numa demonstração clara da diferença da concepção do Palestra Itália
desde a sua fundação, em relação aos demais clubes italianos da cidade, e das
grandes ambições desde sua origem, é justamente o Baile de apresentação do
clube para a sociedade paulistana, realizado em Janeiro de 1915,
antes mesmo de sua primeira partida. Um evento luxuosíssimo, no Salão Nobre do
Clube Germânia, com decoração especial, coquetel, jantar completo e baile sob o
comando de uma grande orquestra. O baile contou ainda com a presença de
diversas personalidades paulistanas, todos os expoentes da colônia, com
destaque para o Cônsul Geral, Comendador Pietro Barolli.
Os preparativos, a organização e os convites geraram frutos antes mesmo do
Baile, já que uma semana antes, a APSA, liga de elite do futebol paulista,
anunciava oficialmente o ingresso do Palestra Itália como filiado da entidade.
Como pode ser visto e afirmado com absoluta clareza, os dois clubes jamais
possuíram qualquer vinculo nas origens, muito menos a "versão" completamente
infundada de uma cisão no Corinthians que pudesse ter vinculo com as origens do
Palestra Itália. Não há nem mesmo registro de cisão na história do Corinthians,
nos idos de 1914.
Qual o motivo então para o surgimento desta versão, além da simples
ignorância e desconhecimento da história dos dois clubes ?
A suspeita recai sobre um fato paralelo, que em nada tem a ver com a fundação:
O Corinthians, foi fundado em 1910 e passou a fazer jogos na
várzea paulistana. Somente em 1913 conseguiu sua inscrição para a recém-criada
LPF, liga paralela que reunia clubes de menor expressão, impedidos
de participar da APSA comandada pelo Paulistano.
Em 1914 o Corinthians conquistou o torneio da LPF, e com este cacife procurou a
APSA em 1915, obtendo o sinal positivo para sua filiação na liga da elite.
Desta forma, formalizou seu desligamento da LPF, abrindo mão do torneio. Para
sua surpresa, a APSA aceitou a filiação mas não inscreveu o Corinthians no
torneio de 1915. Não aceitando a situação, pediram o desligamento da APSA e
retornaram para a LPF, mas o torneio já havia sido iniciado. Assim o
Corinthians ficou fora de qualquer torneio em 1915, liberando seus
jogadores. Neco, Casemiro, Gonzales e Bianco disputaram o Paulista daquele ano
pelo Mackenzie, Pollice pelo Wanderers, e Bororó, Aparício, Fulvio, Peres e
Amilcar, pelo Ypiranga. Em paralelo os jogadores se reuniam para amistosos com
a camisa do Corinthians.
Em paralelo, ocorre que o Palestra Itália passa a atrair jogadores italianos de
todas as equipes, obtendo a adesão de vários expoentes, incluindo o goleiro
Stillitano e o ponta Dante Vescovini, ambos do poderoso Paulistano,
Olivieri que jogava junto com Luigi Cervo no S.C.Internacional,
Flosi do Lusitano, Di Lascio, Cestari, Grimaldi e Severini do
Campos Elyseos, Bertolini de Jundiaí, Picagli do
Ruggerone, e até do Corinthians, alguns jogadores
como Fulvio, Police e Amilcar acabam participando do primeiro amistoso.
Quanto a Bianco, muitas vezes citado, na verdade o craque após
morar na Argentina, tornando-se inclusive campeão da segunda divisão daquele
País em 1912, aos 19 anos de idade, retornou ao Brasil e foi convidado a atuar
pelo Corinthians apenas durante a passagem do Torino [1914], para reforçar a
equipe. O vinculo com o Palestra Itália vem desde a fundação do clube, já que
seu pai foi um dos primeiros dirigentes do clube. Em 1915 Bianco atuou no
campeonato paulista pelo Mackenzie, chegou à seleção da APSA e
já em 1916 integrou-se ao Palestra Itália para seu primeiro campeonato oficial,
tornando-se um dos maiores ídolos da história do clube, onde permaneceu por
longuíssimos 17 anos, conquistando vários torneios.
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